FOTOGRAFIAS DE MIGUEL CHIKAOKA

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 Quanta paixão pode caber em uma imagem? 

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Atriz e professora de História do Teatro, Teorias do Teatro e Dramaturgia na Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA). Doutora em Artes pela Escola de Belas Artes/ Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Mestre em Artes pelo Instituto de Ciências da Artes (ICA/ UFPA). Graduada em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Desde 1993 integra o Grupo Usina Contemporânea de Teatro, onde participou de processos criativos em torno da mímesis corpórea articulada ao contexto amazônico. Autora da pesquisa de doutoramento: Poéticas do Afeto no Teatro de Grupo – Trânsitos e alianças entre os criadores do teatro de Belém do Pará, 1976-2016. Atualmente dirige o Teatro Universitário Cláudio Barradas.

"A pergunta me acompanha enquanto o olhar passeia pelas fotografias feitas por Miguel Chikaoka, registros de momentos preciosos do teatro em Belém, ao longo de duas décadas. Algumas respondem ao meu imaginário em torno de espetáculos dos quais muito ouvi falar, outras rememoram inesquecíveis experiências enquanto espectadora, e em outras me vejo atuante ao lado de pessoas queridas que me fizeram parte dessa tribo. Uma tribo inquieta, inventiva, guerreira, brigona, amorosa, que agrega os tons singulares dos vários grupos, compondo um incrível caleidoscópio das muitas cenas resultantes dessa paixão.

Quando o destino me trouxe a Belém, precisamente em 27 de março de 1990, Dia Mundial do Teatro, não poderia nunca dimensionar a importância desse lugar e de seus artistas na vida daquela jovem de dezoito anos. Na bagagem, a inequívoca herança do meu amado pai, Valter Rocha de Andrade, um nordestino, militante político, escritor, ator e diretor que inaugurou, junto os amigos, em meados dos anos sessenta, o Teatro Casarão, no bairro da Bela Vista, em São Paulo. Nessa cidade, nasci e juntei outra enorme porção de amor, durante os oito anos em que fui aluna - e também um pouco filha - da atriz, bailarina e diretora Penha Pietras, mulher negra que dedicou a vida a ensinar teatro e dança para crianças e adolescentes, morta por Covid, no último 05 de maio, mesmo dia da morte do comediante Paulo Gustavo. Algumas das tantas e tão dolorosas perdas sofridas pelo país afora, fruto do genocídio capitaneado por aquele de quem havemos de nos livrar!

Peço licença, ao mesmo tempo já me permitindo essa aparente digressão, ao mencionar os seres que primeiro me formaram artisticamente e a quem sou muitíssimo grata. Mas falo, sobretudo, de dois artistas desconhecidos que realizaram trabalhos importantes, merecedores de se tornarem visíveis para a historiografia do teatro brasileiro, como o são a gente de teatro desse pedaço da Amazônia. Penso que projetos como este, da Kamara Kó Galeria, sem dúvida contribuem de modo fundamental para minimizar tal invisibilidade. A exposição O Teatro Paraense 80/90 dá uma boa noção dos grandes teatreiros que brindaram essa terra com cenas potentes, provocadoras, de uma força indescritível. Nesses tempos sombrios, ela me chega como um presente, ao me possibilitar ver tantas imagens dos diversos acontecimentos teatrais, seja nos debates, nas leituras dramáticas, nas manifestações políticas e no palco, fosse ele na rua, no porão ou em teatros, principalmente no Teatro Experimental Waldemar Henrique.

Agradeço o convite, e preciso dizer da honra e orgulho de compor uma equipe de curadoria ao lado de Wlad Lima e Claudio Barros, mestres e amigos que tanto amo e admiro. Ela diretora, e ele assistente de direção do meu trabalho de estreia em Belém, Hamlet, encenado no porão da UNIPOP, em 1992. Um privilégio, enquanto pesquisadora encantada pelo fazer dos grupos teatrais e por seus modos de ser e compor uma rede de afetos, poder conhecer quem veio antes e teve um instante apreendido no tempo através do testemunho fotográfico de Miguel. Celebro o passado, esperançosa de futuros melhores. 

Saudades saltaram das imagens, saudades dos talentos que ainda tinham tanto por fazer, saudades dos amigos que fazem imensa falta, saudades de atrizes, atores e diretores gigantes, como Beto Paiva, Ronald Bergman, Helinho Silva, Nilza Maria, José Leal (o Zecão) e Luís Otávio Barata. Em nome deles, deixo minha homenagem e agradecimento aos que abriram caminhos, aos que me proporcionaram e proporcionam a oportunidade de aprender sobre o sentido do coletivo no teatro, e também a Miguel Chikaoka, por ter estado tão presente e nos contar essa paixão. Evoé!"

VALÉRIA ANDRADE

atriz, professora e curadora convidada

Projeto contemplado com o Edital Multilinguagens - Lei Aldir Blanc Pará

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