REBOTALHO, de Ionaldo Rodrigues

Publicado em 13/06/2015

Ionaldo Rodrigues possui uma verve Benjaminiana quando observa e fotografa a cidade como um ato de sondagem arqueológica. Com olhar apurado escava o solo urbano e a superfície das fachadas, fazendo emergir de tais aparências as peças para a construção de um percurso. Esse trajeto é ao mesmo tempo o meio para a experimentação dos processos artesanais e históricos da fotografia. As séries Botânica no Asfalto, de 2007/2012, e Drenagem, de 2014, sintetizam, em certo sentido, a dimensão conceitual da fotografia do artista. 

Fazer botânica no asfalto é conhecer os tipos sociais que habitam a cidade moderna; circular no traçado urbano; deixar-se levar e surpreender-se pelo cotidiano da metrópole; é sentir-se em casa, em plena rua. Enfim, conhecer a cidade e seus sinais como se fossem as linhas de sua mão. No caso de Ionaldo, sua escavação artística interessa-se menos pela flanêrie, hoje demasiadamente romantizada, e bem mais pelo ato de presteza do geólogo ou do historiador.  Sua fotografia é constituída por pedaços de uma cidade que um dia foi. Outrora oferecida em sua utopia moderna ao deleite do passante, o espaço da cidade parece soterrado e em ruínas, como na imagem da fachada onde se lê a palavra “progresso”. A despeito de certa nostalgia evocada pela monocromia em azul, o cianótipo funciona aqui como um documento sem futuro, perdido em um lugar sem tempo, aspecto, aliás, muito presente no trabalho do artista. 

São documentos críticos, perplexos e dispersos de uma cidade em meios às suas representações visuais. Em Drenagem, por exemplo, fica evidente o uso dos processos de captação e impressão fotográficos enquanto percurso histórico para refletir sobre um mecanismo civilizatório da cidade. Por meio da apropriação de uma fotografia de Charles Marville da Paris de 1865, temos a imagem-chave da construção conceitual do seu trabalho. Vemos as mudanças e interferências no solo urbano no controle da água na cidade civilizada como operações de registro e impressão da imagem na cultura civilizada. A identificação das imagens parisienses com o Bairro do Reduto, antes sugerida, agora reaparece de modo irônico nessa exposição em uma relação direta com a Belém de Antonio Lemos. As apropriações de documentos fotográficos de 1910, realizados em frente ao mercado de peixe do Ver-o-Peso e ao Palácio Lauro Sodré, flagram e decompõem a ordem urbana e o projeto de capeamento dos paralelepípedos. A aparente limpeza da imagem e a beleza inegável do espaço moderno e urbano da capital amazônica escondem (e revelam-se na apropriação do artista) um projeto  de saneamento jamais realizado. 

Ionaldo Rodrigues trabalha sobre a matéria das cidades. Em Rebotalho, o artista põe em perspectiva crítica sua coleção dos restos de uma cidade, pedaços de coisas, sobras de paisagem urbana, lixo que exibe um colorido melancólico. Trata-se de um arquivo em processo que oscila entre a bela imagem de uma cidade feia e uma catalogação extensa de signos sem história. Entre o documento crítico e a perplexidade, o trabalho se põe à prova do olhar do espectador. O artista se expõe em um caminho bifurcado no qual temos tanto a qualidade plástica operada pelas camadas de luz e cor que indiciam a cidade sem fisionomia, quanto o documento crítico que guarda o resíduo fenomenológico da relação terna com seu espaço de origem. 

A série em cor, que dá título a esta individual, sinaliza um contraponto. Quando ampliada em formato maior nos puxa para o deleite estético. Quando se apresenta no conjunto de trinta fotografias em tamanho menor, se constitui em um dossiê de uma cidade sem volta, que existe como lixo. O pedaço de tapume trazido para dentro da galeria é o componente de tradução da cidade bifurcada. Há que se dizer que tal bifurcação não é precisa; não se trata de linhas que correm rigorosamente em paralelo; são sinuosas o suficiente para se misturarem em pontos ocasionais, fato que revela muito sobre o estado do artista; sobre o ´estado em processo` de um artista. 

 

Mariano Klautau Filho

(2015) 

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